quarta-feira

Compre sua paz de espírito

Uma coisa é certa: nós não sabemos bem o que nos faz felizes. Caso soubéssemos, não ficaríamos desesperados comprando tudo o que vemos pela frente, não sairíamos tanto de casa em busca de algo que nem ao menos sabemos o que é, não nos sentiríamos atraídos por bens materiais na crença de que eles nos trarão felicidade. Isso é o mais errado. Nem sempre desejamos aquilo que precisamos, e não há prova maior disso do que nosso comportamento consumista obsessivo. Tudo, tudo à nossa volta induz a pensarmos em coisas que não desejamos pensar e a acreditar em falsas utilidades, criando uma leviana necessidade de consumo que sobrepuja e oculta os reais anseios e vontades.

Eu acredito que as pessoas precisam de amigos, esses bichos que são iguais a nós, que parecem ser um espelho opaco de nossas almas. Acredito que precisamos do contato com a natureza, de um corpo que nos faça sentir bem, de uma vida bem analisada, de liberdade e auto-suficiência. Acredito que precisamos de independência, seja ela financeira, emocional ou física. De um tempo reservado para a reflexão e análise daquilo que nos preocupa - e, para isso, de um lugar calmo onde possamos nos afastar das distrações afora; achar um tempo para pensarmos em nossas vidas, sozinhos.

Essa confusão sobre o que queremos ou não pode ludibriar nossa mente do que realmente queremos: amigos, liberdade, paz... e a publicidade tem seu grande papel efetuador nessa confusão toda. Propagandas nos fazem acreditar que precisamos de coisas que na realidade não farão falta em nossas vidas, sendo essa a verdadeira arma da publicidade: o mundo do comércio cria associações implícitas entre aquilo que ele nos quer vender e aquilo que verdadeiramente precisamos para sermos felizes. Por exemplo, um anúncio de bebidas alcoólicas geralmente mostra o consumidor contente e rodeado de pessoas. A propaganda nos remete comprar a cerveja, o rum, o que seja, para nos sentirmos felizes, porém disfarçando nossa real necessidade: estarmos rodeados de pessoas, ou seja, de amigos. Uma propaganda de cigarros mostra um homem cavalgando, ou numa cachoeira, implicitamente mostrando que é a liberdade e o contato com a natureza que realmente desejamos.

Colocamos obstáculos financeiros em nossas cabeças para alcançarmos a felicidade. E na verdade são as coisas mais simples e singelas que nos marcam mais e nos fazem sentir aquela sensação boa. E isso não custa nem um real. Isso depende apenas da vontade de alguém de querer provocar um sorriso num rosto alheio, e principalmente da vontade própria de abrir a cabeça e entender que, mais do que alguém querendo nos ver felizes, o maior esforço depende somente de nós. O que mais importa é o nosso amor próprio, a vontade de nos sentirmos felizes. E de mais ninguém.

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