Chega a ser absurda a minha negação às mudanças. Principalmente àquelas inesperadas.
Quando ainda estava no colegial, havia um Pastel e Amor logo na saída das salas do ensino médio, uma lanchonetezinha com pastéis, sanduíches, sucos, docinhos... mas não era nada disso que era maravilhoso lá. Era aquele pão de queijo. Maciço, crocante, balsâmico, esplêndido... toda a sinestesia dos meus 5 sentidos utilizada para o mesmo fim. Era o oposto daqueles que eu costumava chamar de "kinder ovos salgados" - aparentemente enormes e apetitosos, mas recheados de ar. Não. Aquele era perfeito. E o melhor é que custava apenas um real!
OBS importante*: antes de tudo, não era mais uma dessas lanchonetes de esquina não: todos os funcionários usavam aventais, luvas, e aquelas rendinhas no cabelo para não deixar nenhum fio sorrateiro aparecer por entre seus dentes durante uma mordida distraída.*
Nos dias de aula chuvosos e tristes, a única coisa que me alegrava era saber que aquele pão de queijo me esperava quentinho no forno; era a panacéia dos meus dias enfermos. Eis o dia. Eis o maldito dia que fiquei na sala tirando dúvidas com o professor. Pedi para minhas amigas comprarem meu pão de queijo [aah, como poderiam ter sido dois!!] enquanto falava distraída e esperava ansiosa, balançando as pernas debilmente, a materialização daquele cheiro de cantina que entrava pelas narinas. Saber que pessoas comiam o mesmo pãozinho de queijo delicioso que a qualquer instante eu estaria comendo só aumentava minha fome.
Alguns minutos depois, ouço gritos seguidos de risadas, mas não dei muita atenção - com certeza mais alguém rolando escada a baixo. Logo depois, entram minhas amigas na sala, e, pela minha surpresa, sem nenhum pão de queijo na mão. Meu estômago faminto sentiu a frustração e soltou um grito de desespero. Perguntei, como se elas fossem as culpadas, o motivo das mãos vazias. Disseram-me que enquanto estavam na fila, viram um vulto preto passando pela frente da bancada do caixa. Poucos milésimos depois, todas as meninas estavam correndo, alguns meninos rindo, e todos, sem exceção, saíram da fila do Pastel e Amor - a ratazana preta já havia feito seu estrago. "Que se dane, o rato estava do lado de fora da lanchonete, não dentro! Os pães de queijo ainda estão a salvo." - pensamento em voz alta. Ninguém me levou muito a sério [como sempre], mas mesmo assim resolvi passar fome aquele dia.
Na manhã seguinte lá estava eu, na frente do Pastel pedindo meu pão de queijo, feliz da vida pela ausência da fila quilométrica de costume. Uns três ou quatro heróis também não ligaram para o incidente do dia anterior e arriscaram comer lá, sob os olhares de ojeriza dos outros estudantes sentados nos banquinhos. Aproveitei a situação e não comprei somente um, mas TRÊS pães de queijo, já que sabia como seria a reação alheia. Um ato de revolta! Meus amigos ficaram indignados, qualquer marca estranha no pão de queijo era motivo de piadinhas que iam desde leptospirose à AIDS.
A cada dia que se passava, a quantidade de pães de queijo ia diminuindo, e progressivamente os docinhos e os sanduíches também. E eu apenas esperando que o preço do pão de queijo baixasse ainda mais.
Até que um dia, descendo as escadas, notei uma lona cobrindo a entrada do Pastel. Esfreguei meus olhos. Mal acreditei! Fui correndo perguntar ao segurança se no dia seguinte estaria aberto, e ele respondeu num tom risonho de escárnio: "Não, minha jovem, eles fecharam a lanchonete. Acho que faliu".
Senti meu coração derretendo naquele momento. No começo agradecia o rato por ter eliminado as filas e por quase ter baixado o preço dos pães; depois do comunicado, acho que nunca senti tanta raiva de um animal em toda minha vida. Estava com raiva do bicho, das amigas, dos alunos - frescos - que boicotaram o pastel, dos donos do pastel, da escola, daquele segurança que me deu a tristíssima notícia...
Aaaah, por que não peguei quatro pães de queijo, ao invés de três?! Por que não evitei o fechamento do Pastel?! Me arrependo até hoje.
Mas minha acomodação às mudanças é maior do que meu desprezo por elas. Nunca mais achei nada tão saboroso e tão barato como aqueles pães de queijo.
Maldito rato preto!
terça-feira
sexta-feira
Augustinho
Vês?! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão — esta pantera —
Foi tua companheira inseparável!
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão — esta pantera —
Foi tua companheira inseparável!
Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.
Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.
Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!
dos Anjos
Esse poema demostra bem a decadência do homem na questão das relações humanas. É uma visão bem pessimista, sim. Mas como não sentir uma certa empatia? Pessimista, porém realista.
quarta-feira
Amigo é coisa...
Tudo pode começar com um simples vento passando pela vidraça da janela numa sala de aula. Esse vento sopra uma caneta em cima de sua mesa, que gira e logo cai no chão. Uma pessoa pega caneta e a devolve no lugar onde estava, olhando para o ser desastrado que a derrubou - retribui com um sorriso. Assim, começam a conversar, e o mesmo ocorre nos duzentos e poucos dias de aula seguintes. É, meus caros, um simples acaso da vida cotidiana fez nascer um laço entre essas duas pessoas, essa tal de amizade.
É difícil descrever o que é um amigo, e qual a diferença deles comparados aos colegas e aos conhecidos. Mas você simplesmente sente, você sabe quem são seus verdadeiros.
São essas pessoas que nos permitem explicitar todos nossos defeitos e virtudes, e mesmo sabendo de nossas piores histórias e comportamentos, ainda assim nos recebem com aquele abraço caloroso, ou aquele puxão de orelha sincero. Aguenta nossos lamentos, escuta nossos desejos inalcançáveis, presencia aquele erro que cometemos milhões de vezes e sabem, apesar de fingir muito bem, que ainda iremos cometê-los mais meio milhão de vezes.
Alguns podem até ser egoístas, mas não agem desse modo ao compartilhar as experiências e o que aprenderam ao longo da vida. Alguns podem mentir às vezes, mas nunca deixarão de falar algo que é verdade, por mais que as palavras possam te magoar. E esses seres são poucos. Não importa que sejam 10 ou somente um; sinta-se feliz por possuí-lo - ao menos saberá que existe alguém realmente se importa.
É como se não existisse preconceito nem julgamentos: não hesitamos contar algo constrangedor, quase que podemos pensar em voz alta. É aquele que a cada momento de convívio nos enriquece e aperfeiçoa, mas não pelo que ele entrega, e sim pelo que nos revela de nós mesmos. Sim, sim... com os amigos acabamos nos entendendo melhor, vemos do que somos capazes de fazer e de alcançar, conhecemos melhor nossos limites. Enxergamos nele nossos defeitos e nos irritamos com isso. É que é difícil admitir que existe alguém com o pensamento tão igual ao nosso, com o mesmo jeito e temperamento... achamos que somos exclusivos nesse quesito. Demora para nos acostumarmos com essa sensação estranha de um espelho humano, mas quando acomodamos nossa vista e paramos um pouco de pensar, apenas sentimos. Sentimos que não o conhecemos, e sim o reconhecemos, por mais diferentes ou parecidos vocês forem.
Quem ainda não sentiu isso, espero que sinta algum dia. Não consigo imaginar como seria minha vida sem eles, são as peças que faltam no meu quebra-cabeça, a compreensão para o meu cansaço e o repouso para minha agitação.
É aquele amor que nunca morre.
Compre sua paz de espírito
Uma coisa é certa: nós não sabemos bem o que nos faz felizes. Caso soubéssemos, não ficaríamos desesperados comprando tudo o que vemos pela frente, não sairíamos tanto de casa em busca de algo que nem ao menos sabemos o que é, não nos sentiríamos atraídos por bens materiais na crença de que eles nos trarão felicidade. Isso é o mais errado. Nem sempre desejamos aquilo que precisamos, e não há prova maior disso do que nosso comportamento consumista obsessivo. Tudo, tudo à nossa volta induz a pensarmos em coisas que não desejamos pensar e a acreditar em falsas utilidades, criando uma leviana necessidade de consumo que sobrepuja e oculta os reais anseios e vontades.
Eu acredito que as pessoas precisam de amigos, esses bichos que são iguais a nós, que parecem ser um espelho opaco de nossas almas. Acredito que precisamos do contato com a natureza, de um corpo que nos faça sentir bem, de uma vida bem analisada, de liberdade e auto-suficiência. Acredito que precisamos de independência, seja ela financeira, emocional ou física. De um tempo reservado para a reflexão e análise daquilo que nos preocupa - e, para isso, de um lugar calmo onde possamos nos afastar das distrações afora; achar um tempo para pensarmos em nossas vidas, sozinhos.
Essa confusão sobre o que queremos ou não pode ludibriar nossa mente do que realmente queremos: amigos, liberdade, paz... e a publicidade tem seu grande papel efetuador nessa confusão toda. Propagandas nos fazem acreditar que precisamos de coisas que na realidade não farão falta em nossas vidas, sendo essa a verdadeira arma da publicidade: o mundo do comércio cria associações implícitas entre aquilo que ele nos quer vender e aquilo que verdadeiramente precisamos para sermos felizes. Por exemplo, um anúncio de bebidas alcoólicas geralmente mostra o consumidor contente e rodeado de pessoas. A propaganda nos remete comprar a cerveja, o rum, o que seja, para nos sentirmos felizes, porém disfarçando nossa real necessidade: estarmos rodeados de pessoas, ou seja, de amigos. Uma propaganda de cigarros mostra um homem cavalgando, ou numa cachoeira, implicitamente mostrando que é a liberdade e o contato com a natureza que realmente desejamos.
Colocamos obstáculos financeiros em nossas cabeças para alcançarmos a felicidade. E na verdade são as coisas mais simples e singelas que nos marcam mais e nos fazem sentir aquela sensação boa. E isso não custa nem um real. Isso depende apenas da vontade de alguém de querer provocar um sorriso num rosto alheio, e principalmente da vontade própria de abrir a cabeça e entender que, mais do que alguém querendo nos ver felizes, o maior esforço depende somente de nós. O que mais importa é o nosso amor próprio, a vontade de nos sentirmos felizes. E de mais ninguém.
Eu acredito que as pessoas precisam de amigos, esses bichos que são iguais a nós, que parecem ser um espelho opaco de nossas almas. Acredito que precisamos do contato com a natureza, de um corpo que nos faça sentir bem, de uma vida bem analisada, de liberdade e auto-suficiência. Acredito que precisamos de independência, seja ela financeira, emocional ou física. De um tempo reservado para a reflexão e análise daquilo que nos preocupa - e, para isso, de um lugar calmo onde possamos nos afastar das distrações afora; achar um tempo para pensarmos em nossas vidas, sozinhos.
Essa confusão sobre o que queremos ou não pode ludibriar nossa mente do que realmente queremos: amigos, liberdade, paz... e a publicidade tem seu grande papel efetuador nessa confusão toda. Propagandas nos fazem acreditar que precisamos de coisas que na realidade não farão falta em nossas vidas, sendo essa a verdadeira arma da publicidade: o mundo do comércio cria associações implícitas entre aquilo que ele nos quer vender e aquilo que verdadeiramente precisamos para sermos felizes. Por exemplo, um anúncio de bebidas alcoólicas geralmente mostra o consumidor contente e rodeado de pessoas. A propaganda nos remete comprar a cerveja, o rum, o que seja, para nos sentirmos felizes, porém disfarçando nossa real necessidade: estarmos rodeados de pessoas, ou seja, de amigos. Uma propaganda de cigarros mostra um homem cavalgando, ou numa cachoeira, implicitamente mostrando que é a liberdade e o contato com a natureza que realmente desejamos.
Colocamos obstáculos financeiros em nossas cabeças para alcançarmos a felicidade. E na verdade são as coisas mais simples e singelas que nos marcam mais e nos fazem sentir aquela sensação boa. E isso não custa nem um real. Isso depende apenas da vontade de alguém de querer provocar um sorriso num rosto alheio, e principalmente da vontade própria de abrir a cabeça e entender que, mais do que alguém querendo nos ver felizes, o maior esforço depende somente de nós. O que mais importa é o nosso amor próprio, a vontade de nos sentirmos felizes. E de mais ninguém.
segunda-feira
Arthur
"Se um deus criou este mundo,
não gostaria de ser esse deus,
pois sua miséria e seu infortúnio
me partiriam o coração."
Schopenhauer
não gostaria de ser esse deus,
pois sua miséria e seu infortúnio
me partiriam o coração."
Schopenhauer
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