quinta-feira

1º dia - A viagem!

Dia cansativo! Deu quase tudo errado... eram 20 para as 5 da manhã quando a perua da CVC passou em casa para nos levar ao aeroporto. Eu, preparada como sou, esquentei 20 pães de queijo para ir comendo no caminho. Mas principalmente por que desde que eu me entendo por gente, meus pais tem essa mania de querer chegar no aeroporto 5 horas antes do vôo. Estávamos lá eu, minha mãe, minha 'tia' Jaqueline e meu irmão - de intruso, já que essa viagem era meu presente de 15 anos.
A fila do despache estava quilométrica, absurda! Depois de uma meia hora mais ou menos, conseguimos chegar até a comissária, ou sei lá como se chamam essas pessoas que checam seus dados no aeroporto, e, para melhorar o humor, não nos deixaram embarcar. Por que, claro, meu pai falecido deveria ter me dado autorização para viajar para o exterior... ou mais fácil, o atestado de óbito dele. Muy elegante. Minha mãe teve que voltar correndo para casa buscar a papelada toda (no final eles não estavam tão errados em chegar 5 horas antes no aeroporto, ponto para os pais!). Ela voltou umas 2 horas depois e conseguimos embarcar são e salvos.
Aquele avião era demais para uma pessoa acostumada a viajar somente em aviões para o nordeste brasileiro. As aeromoças [e aeromoços!] usavam um uniformezinho de uma cor diferente, cabelos sumptuosamente penteados e exalavam lavanda ao passar. Estava em meu momento de fausto! Havia uma pequena televisão embutida na traseira do banco da frente, e - o melhor - com filmes que nem tinham estreado no cinema! Não que fossem bons, mas nada como a sensação de uma menina de 15 anos chegar de viagem e contar esse detalhe para as amigas. Eram "Como se fosse a primeira vez" - "Séeeerio Rêe!?! Eu quero muito ver esse filme quando lançar!!" -, "Scooby Doo2" e "Hellboy". Uau.
Foram 4 horas de viagem e mais uma pra tentar achar minha mala quando desembarcamos na Patagônia. Conhecemos o hotel, como bons turistas, e caminhamos pela avenida principal em busca de uma aventura. Entramos numa lojinha de roupas alugadas, quase albergue. Era tudo de madeira, várias roupas empilhadas umas sobre as outras, cabides, botas de todas as cores, e o senhorzinho argentino mais simpático que eu já vi. Seu nome era Chiquito, nosso Chiquinho: possuía uma testa grande e abaulada por conta da semi-calvície, e o pouco cabelo que lhe restava era grisalho; algumas marcas da idade - não muitas - e os olhos azuis lhe davam um ar de galã americano. Não devia ter mais de 55, parecendo que em todos esses anos a única coisa que fez foi sorrir - era todo olhos e simpatia. Como o bom galanteador, deu umas ciscadas inocentes na minha tia. Aaah, pobre Chiquinho! Mal sabia que ela só tinha olhos para nosso monitor, o novinho Martin. Mas valeu a tentativa... pelo menos garantiu que nós fossemos visitá-lo todos os dias durante nossa estadia em Bariloche.
O clima lá é uma coisa que me surpreendeu bastante. Esperava aquele frio roaz, nevascas estrondosas, estilo aqueles programas de sobrevivência da Discovery Channel. Totalmente equivocada! O frio é mais ameno que o inverno paulista, já que o tempo lá é seco e não existe brisa nem vento. Saí de casa toda embolotada de casacos, mal conseguia esticar os braços de tantas camadas de roupa. Passei vergonha na rua, ô se passei. Me olhavam como se eu fosse um Alien, ou coisa do tipo. Resultado: no dia seguinte saí só com uma camiseta normal e um casaquinho na mão. E sim, passei frio. Aprendi a não subestimar míseros 3ºC.

Pérola do dia: Silvia arranhando seu portanhol na saída do shopping, pergunta ao segurança tão lentamente que quase o tratava como um doente mental: "Com.. como lacemos paaa-ra a chênte sair por onde a chênte entrou?"